30 Agosto 2018
O coletor ou copo menstrual é uma alternativa aos pensos higiénicos e tampões e que recolhe o fluxo menstrual em vez de o absorver, mantendo o sangue em vácuo e impedindo a sua oxidação e consequente proliferação de bactérias e fungos. Apesar de se terem tornado mais conhecidos nos últimos anos, os coletores menstruais não são uma invenção recente. Há registros de coletores rudimentares comercializados desde 1867 e são produzidos industrialmente desde a década de 1930, nos Estados Unidos. Contudo, nunca foi tão bem sucedido como atualmente.
O modelo de coletor como o conhecemos hoje existe desde o final dos anos 80, mas nessa altura era fabricado em látex. Por ser um material potencialmente alergénico, mais recentemente foi substituído por outros materiais, como silicone médico ou TPE (elastómero termoplástico - o mesmo material que as chupetas e tetinas dos biberões para bebés).
Existem diversas marcas, modelos, cores e feitios comercializados em Portugal atualmente. É relativamente fácil recolher informação sobre o coletor menstrual. Com alguns cliques pela internet e alguma capacidade de seleção, consegue chegar a muita informação fidedigna e útil sobre o produto sem ter sequer de sair do sofá. O que não é tão fácil para todas, é conhecer opiniões de mulheres que utilizaram, de facto, o copo.
Recolhemos experiências e opiniões de 25 mulheres, entre os 24 e os 53 anos, desde as que estão a experimentar o coletor pela primeira vez a outras que usam há cinco anos ou mais. A maioria teve conhecimento através de amigas, colegas ou pela internet e declara-se bastante satisfeita com a experiência de utilização do copo. Apenas três deixaram de o usar; uma devido a gravidez, e duas que consideraram difícil de colocar e tiveram dúvidas de higienização, sobretudo para as mãos.
O conforto, higiene, e as vertentes económica e ecológica são as principais vantagens apontadas, geralmente, sobre o coletor. As mulheres com quem falámos acrescentam outras:
"Só precisamos de nos preocupar duas vezes por dia, quando colocamos e tiramos, sem correr riscos de infeções, por exemplo. É um método higiénico, e não temos que nos preocupar em comprar pensos nem tampões. Para não falar que fazemos muito menos lixo e não é tóxico, ao contrário dos tampões"
“É super ecológico e duradouro: um copo dura, geralmente, 10 anos”
“É muito confortável e não se sente”
“É a alternativa mais saudável e, ao contrário dos tampões, não tem qualquer efeito nocivo para a saúde”
“Ausência de odores”
“É prático e ocupa pouco espaço”
“Quando bem posto, aguenta mais tempo durante o dia”
“Os tampões ‘super absorventes’ contribuem para desidratar e secar a mucosa da vagina e provocar inflamações, com o copo menstrual isso não acontece”
“Não ter de me preocupar com o cordão do tampão na praia, por exemplo, é ótimo”
Nem tudo são rosas, é verdade, e as mulheres com quem falámos reconhecem algumas desvantagens na utilização do coletor em relação a métodos descartáveis. A mais referida foi a dificuldade na higienização em casas de banho públicas, onde muitas vezes não existe uma torneira ao lado da sanita que permita a lavagem do copo. Pela internet, há utilizadoras que deixam a dica de utilizar uma garrafa de água para o fazer.
Para além dessa, houve outras desvantagens identificadas:
“A possibilidade de me esquecer dele num fim de semana ou em férias... não é uma coisa que se compre tão facilmente numa farmácia”
“Os tampões ainda são os mais práticos no que diz respeito a lidar com surpresas”
“Não é fácil de colocar nas primeiras vezes e se não ficar bem colocado pode vazar e, por vezes, faz alguma pressão na bexiga”
“A sua manutenção – exige higienização que os recursos descartáveis não necessitam"
“ Estar num local onde não possa ser lavado, as casas de banho públicas são só um dos exemplos”
“Pode ser ‘traumático’ para quem tem muito fluxo”
Apesar de ter ‘contras’, as inquiridas fazem um balanço positivo da utilização do copo menstrual e algumas só lamentam “não ter conhecido e começado a usar mais cedo”. Só uma teve dúvidas sobre se o recomendaria a outras mulheres, com base na existência de “aspetos positivos e negativos” e uma outra disse que recomenda, mas “se for uma pessoa de espírito aberto”.
Perguntámos ainda como é que as outras pessoas reagem quando falam no copo menstrual e dizem que utilizam:
“A maioria acha muito estranho e até nojento”
“As mulheres que não usam por norma acham um pouco nojento. No entanto, não conheço nenhuma que tenha usado e tenha voltado a usar outro tipo de produto”
“Algumas ficam curiosas outras mostram algum preconceito”
“Algumas com curiosidade fazem-me perguntas verdadeiramente interessadas. Outras dizem ‘acho o máximo, mas eu nunca conseguiria!’”
“A maioria faz caretas, algumas ficam apreensivas. Depois explico como funciona, quais as vantagens e ficam curiosas e com vontade de experimentar”
As vertentes económica e ecológica têm cada vez mais peso na escolha deste método.
A troca de pensos e tampões é recomendada idealmente a cada quatro horas, o que dá seis unidades por dia – cinco, descontando o período de sono. Considerámos uma menstruação de quatro a cinco dias por mês ao longo de quarenta anos, o que dá 9 a 15 mil absorventes durante a vida fértil de uma mulher.
Fizemos cálculos com produtos de marca branca (a 0,06 cêntimos a unidade) e outros de uma das marcas mais vendidas (a 0,15 cêntimos a unidade): uma mulher gasta entre 620 a 2250 euros em absorventes higiénicos ao longo da vida fértil.
Em contraste, um copo menstrual pode durar até 10 anos, precisando de trocar apenas três a quatro vezes na vida. Encontrámos no mercado coletores com preços entre 18 a 25 euros, o que significa que gastará apenas 54 a 100 euros na vida com os seus “materiais menstruais”.
A nível ecológico, considere que um penso higiénico, por exemplo, demora mais de 100 anos a decompor-se e, para além disso, o impacto ambiental negativo começa logo na extração e processamento de matérias-primas, que se baseiam na produção de plásticos (petróleo) e de celulose (árvores) – não só para os absorventes em si, mas ainda para as embalagens.
As ‘mulheres reais’ que responderam ao nosso questionário deixaram ainda alguns comentários adicionais e conselhos úteis a outras mulheres que ponderem experimentar o copo menstrual. Se esse é o seu caso ou se tem curiosidade sobre o assunto, espreite a lista abaixo:
- Ao comprar é bom ser uma cor diferente dos vermelhos e rosa para ser mais fácil limpar;
- O preço inicial elevado pode não ser cativante, mas compensa porque se gasta muito mais em pensos ou tampões que ainda por cima poluem mais o ambiente.
- Depois de algum tempo pode notar algum odor. Basta colocar de molho em água oxigenada durante algumas horas e fica resolvido.
- Se tem alergias a pensos ou tampões e já não sabe o que fazer, o coletor pode ser uma excelente opção.
- É preciso conhecer bem o aparelho feminino para o saber usar bem.
- Não desista à primeira se a experiência não for ótima mas quiser mesmo utilizar. Há marcas mais fáceis e outras mais difíceis, é explorar o mercado.
- Informe-se sobre o tamanho. Algumas marcas disponibilizam indicações online, com base numa série de critérios, ou então pode pedir ajuda numa farmácia. O tamanho correto é imprescindível para que tudo corra bem e para que a experiência seja positiva e cumpra o seu propósito.
“Não posso deixar de recomendar que deixem de ter problemas em tocar no copo e que deixem de ter preconceitos em usá-lo por saberem que vão ter que tocar nele diretamente. Se sentem nojo de si mesmas, isso dá realmente que pensar! Para além disso, peço que pensem no impacto ambiental de usarem pensos e tampões a vida inteira. São cerca de 30 anos da nossa vida a utilizá-los e, se cada mulher o fizer, imaginem o lixo e o tempo que demora esses produtos a degradarem-se. O pequeno gesto de utilizarmos um copo menstrual pode ter um impacto gigante no mundo e - certamente - reduzir drasticamente a nossa pegada ecológica. Esta devia ser uma preocupação de toda a gente, claro, não apenas das mulheres, mas podendo reduzi-la desta forma, porque não?”. É necessário ultrapassar as barreiras psicológicas."
Catarina Sousa, 31 anos