04 Setembro 2019
Matt Preston o vistoso e carismático jurado do MasterChef Austrália lançou o livro Delicioso, Fácil, Rápido esta terça-feira, dia 3, na livraria Buchholz, em Lisboa. Ao site da SIC Mulher, o autor falou sobre a descoberta de Portugal, o prato de linguado perfeito, o pastel de bacalhau que ainda não encontrou e a herança da cozinha nos três filhos.
Lisboa. O calor chegou em força em setembro. No primeiro andar da livraria já estão algumas dezenas de pessoas sentadas. Os livros foram cuidadosamente expostos. Matt Preston chega uma hora antes. De calças às riscas (a sua nova obsessão) , lenço obrigatório no pescoço, e blazer, aguarda no piso inferior, enquanto é penteado. Ali, entre livros infantis e literatura estrangeira, o escritor está à vista de todos aqueles que não foram para o ver.
Chega o momento da entrevista, mas só há uma cadeira para dois. Apressou-se a ir buscar outra. “Há quanto tempo chegámos?”, pergunta Matt Preston à mulher que folheia um livro. “Ainda não fez duas semanas”, assegura, Emma Preston.
Matt Preston abandonou o MasterChef Austrália
Reprodução Instagram, DR
Ainda não encontrei o verdadeiro pastel de bacalhau
“Estava a tentar vir há dez anos e, sinceramente, conseguir uma janela temporal para o fazer. A combinação do lançamento do livro e agora, com mais tempo (as gravações do MasterChef Austrália seriam em outubro) tornaram isso possível. Vim então de férias, o que é fantástico porque permite-me ter tempo para comer”, explica com sorriso rasgado.
Esteve no Algarve (Tavira) e no Alentejo (Beja), mas fez questão de evitar as britânicos (nasceu em Inglaterra) e o campos de golfe , “tudo isso que é terrível”. É assim que viaja sempre que pode. Escolhe passar vários dias num país e reservar o turbilhão de entrevistas e compromissos para o fim.
E é graças a esta estratégia que consegue levar de Portugal, entre outras memórias e sabores, o linguado, infinitamente mencionado ao longo da conversa. “Encontrei o ‘Portugal real’ nas zonas que visitei no Algarve, bem à superfície, em Lisboa, tal como em outras grandes cidades, é preciso ir mais fundo para encontrar isso”, admite. “Ainda não encontrei o verdadeiro pastel de bacalhau”, revela com alguma frustração.
E sobre os pastéis de Belém? ”Isto é o eu acho interessante. Aquela loja é para turistas com 400 lugares, mas não se deixou cair por ingredientes mais baratos. Está protegido”, adianta com uma certa dose de alívio de quem está habituado a ver a receita original assaltada pela popularidade.
O que vou fazer para o jantar?
“Estava a filmar o MasterChef em Sidney, era um crítico gastronómico em Melbourne e parecia errado continuar a fazê-lo numa cidade onde não estava a viver sete dias por semana. Não estava imerso”, relembra. Escolheu então, escrever sobre comida, sem a avaliar. Já escrevia receitas há cerca de dez anos. E é aí que tem encontrado o seu prazer em sete livros de cozinhas e demonstrações em todo o mundo.
Preston vem de uma família de jornalistas, historiadores e atores. No livro Delicioso, Fácil, Rápido constam receitas que faz regularmente em casa. “Há uma constante necessidade em satisfazer a pergunta: ‘o que vou fazer para o jantar?’ Algo que as crianças vão adorar, que não te prenda duas horas na cozinha e que encontras no supermercado, sem nada particularmente mais exótico. E os ingredientes básicos que os australianos usam são muito semelhantes aos dos portugueses”, assegura.
O autor garante que a família considera ridícul, a sua obsessão por comida.
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Os três filhos e o linguado do qual não consegue parar de falar
Tem três filhos e nas páginas do sétimo livro estão receitas vencedoras na sua casa de família. As coxas de frango, o risotto, as costeletas de borrego, lentamente cozinhadas, as almondegas de peru com molho de tomate picante são alguns desses exemplos.
“Mas os meus filhos, a minha esposa e as mulheres do George [Calombaris] e Gary [Mehigan]… todos eles acham que a nossa obsessão com a comida é ridícula. Somos três velhos que seguem o Benfica há 15 anos, somos vidrados e aborrecidos. O meu filho mais velho gosta mesmo de comer, é curioso, o do meio não parava de fazer merengue e agora descobriu as raparigas e perdeu o interesse e a minha filha é, talvez, quem mais gosta de cozinhar”, conta.
Tem tido a ‘sorte’ ter comido nos melhores restaurantes do mundo (diz que na verdade há apenas cinco), mas e os outros? “Existem os 200 melhores do mundo em street food e, com essa experiência, reequilibras e atentas ao prato individual. Por exemplo, foi aqui [em Portugal] que comi um dos melhores pratos de peixe em todo o mundo, o linguado, à beira da estrada. Não era requintado ou caro, era fantástico, é imediatamente apreciado por qualquer pessoa”, sublinha, ainda surpreendido pela descoberta.
O 'trio maravilha' despediu-se do formato australiano.
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“Eu posso ir ao Alma (de Henrique Sá Pessoa), mas esses pratos são um reflexo da alma da cozinha portuguesa e são esses que muitos turistas perderão. Se nunca comeste uma açorda, não vais perceber porque o prato é tão inteligente e resulta num restaurante mais prestigiado. Tive melhores refeições em casas de amigos ou na rua do que em restaurantes de alta cozinha”, assegura com firmeza.
MasterChef Austrália termina, após 11 anos de exibição. Pelo menos com os três jurados, o programa ganhará força com outras personalidades. Mas o ‘trio maravilha’ promete voltar, seja em que formato for. Para Preston não se trata de todo do fim. A entrevista terminou, mas o piso superior da livraria é pouco para os fãs que o vieram ver. Lá fora estão centenas de pessoas numa fila que se estende por duas ruas. Preston acabaria por ficar quatro horas até autografar todos os livros. A noite, segundo o próprio, ia festejar-se com muitas minis.